quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Visto do céu

Ele era estranho, era diferente. Vestia uma roupa feita de um material que eu desconhecia: tinha uma textura macia, era aconchegante e ele chamava-lhe lã. Vinha descalço, com os pés sujos de algo castanho (o meu pai disse-me que aquilo era terra). Na cabeça usava um chapéu verde tão esburacado que dele saiam várias madeixas do seu longo e escuro cabelo. Os olhos eram azuis e a sua pele estava muito morena e um pouco seca, sobressaindo os vários sinais castanhos espalhados pela cara. Chamava-se Pedro e parecia um ser vindo de outro planeta..
Na verdade até vinha... O meu pai já me tinha anteriormente falado da vinda deste homem, um dos últimos habitantes do velho planeta. Quando ele chegou aqui à K17 parecia perdido e assustado. Olhava à sua volta com uma expressão de inquietação e abatimento, ao mesmo tempo que parecia estupefacto com aquilo que observava. Percorreu com o olhar o compartimento principal da nave, observou todos os objectos, todos os recantos, as pessoas, que o encaravam com um olhar desconfiado.
Nos dias que se seguiram Pedro isolou-se, vagueando cabisbaixo entre a sua camarata e o refeitório. Não comia, não falava com ninguém, passava horas e horas a olhar pela janela que dava para o Planeta Azul. Azul de nome, pois eu daquela janela só vejo uma esfera cinzenta e acastanhada, como se estivesse envolvida numa película de fumo.
Eu nasci aqui, neste local que é o lar de muita gente, e sempre foi esta a minha realidade: envolvida por este lençol negro que é o espaço, onde brilham pequenos pontos luminosos e meteoritos se cruzam na sua viagem galáctica. Sei que quem nasceu na Terra e foi forçado a vir para este sítio vive à propulsão de uma memória, do sentimento de melancolia por aquilo que deixou para trás, mas para mim esta é e sempre foi a minha casa, não conheço outra. Gosto de ouvir as histórias dos mais antigos, que contam como era a vida lá naquele lugar. Contam que a Terra fora outrora verdadeiramente o Planeta Azul – a água e o céu eram azuis, a terra molhada tinha um cheiro especial quando chovia, os campos eram verdes, havia árvores enormes, flores de todas as cores, florestas, prados, campos e jardins. Depois tudo isto acabou. Eles dizem que a culpa foi deles, dos seus habitantes. Mas eu não compreendo... se o planeta azul era tão belo, se tinha todas estas coisas fantásticas, então porque e como o destruíram? Não faz sentido.
Incrivelmente Pedro veio falar comigo. Penso que tenha sido a primeira vez que ele se dirigiu a alguém aqui dentro. Aproximou-se de mim e perguntou-me que horas eram. Achei a pergunta um pouco estranha mas tentei explicar-lhe:
- Não é hora nenhuma, não é dia nem noite. Aqui é sempre igual. O universo é sempre negro e nós não contamos as horas nem os dias nem os meses, contamos apenas o passar dos anos, através do movimento da Terra em volta do sol, que observamos daqui. Mas aquela velha estrela deve estar já na sua fase final. Parece uma pequena chama encarnada prestes a apagar-se dentro da grande lareira.
Pedro dirigiu-se silenciosamente até à janela virada para o Planeta Azul e ficou a olhá-lo fixamente durante muito tempo. Nisto tirou do bolso uma fotografia antiga, onde se encontravam duas crianças junto de água. Chamou-me, direccionou a fotografia ao meu olhar e disse:
- A coisa de que mais tenho saudades é o mar. O mar azul, a água fria, o cheiro do iodo das rochas, a areia que me fazia cócegas nos pés...
- O mar? Como é o mar? – perguntei eu.
- O mar desta foto, o mar da minha infância, era límpido, eu conseguia ver as pedrinhas e as conchas no seu interior. A água era fria e tão salgada que me fazia arder os olhos. A última vez que vi o mar... parecia quase um pântano. A água já não era azul mas sim verde acastanhada, a espuma já não era branca, tinha uma temperatura morna e alguns peixes a boiar juntamente com resíduos e lixos. Quem me dera voltar a sentir a brisa de um amanhecer na praia.
- O que é uma brisa? Trouxeste alguma contigo?
Ele sorriu ao ouvir a minha pergunta (pela primeira vez vi Pedro a sorrir – os seus dentes eram pequenos, cor de pérola, e surgia uma covinha no canto direito da sua boca) e explicou-me que a brisa era como uma leve lufada de ar fresco que passa suavemente por nós e nos provoca um subtil arrepio.
Fez-se silêncio. Ficámos ali os dois frente a frente, sem falar, a olhar o velho planeta pela janela redonda, ouvindo-se apenas o labutar da máquina do oxigénio.
Então ele continuou:
- Pensávamos que não acontecia para além dos filmes, que podíamos continuar a destruir e que os recursos eram inesgotáveis. Tanta reciclagem, políticas ambientais, protocolos e cimeiras... tudo em vão. O sol que antes dava um agradável calor agora queima-nos, a neve onde as crianças brincavam agora mata e congela, a chuva que regava os campos destrói agora as cidades que ainda estão de pé, a brisa já não existe, existem apenas vendavais que semeiam a destruição à sua passagem. As pessoas foram saindo para o espaço, escolheram a opção mais fácil – fugir e deixar morrer a Terra.
- Vais gostar de estar aqui Pedro. Pode não haver mar, vento, nuvens ou flores, mas tens o universo – biliões de estrelas que cintilam, asteróides de todos os tamanhos e feitios, na sua desorganizada e frenética rota. Há dias em que se vê Marte, o planeta vermelho, outros em que se vê o brilho de Vénus, através das janelas laterais. E a Lua, a Lua está tão próxima que se apresenta sempre na mesma face. – disse eu a Pedro, na esperança de o confortar. Os seus olhos já não eram tão azuis, a sua pele já não estava tão morena e brilhante. Este não era o seu lugar.